terça-feira, 27 de outubro de 2009

A UTILIZAÇÃO DA LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA NO ENSINO DE HISTÓRIA:

O filme como testemunho do presente

O cinema é um testemunho da sociedade que o produziu e, portanto, uma fonte documental para a ciência histórica por excelência. Nenhuma produção cinematográfica está livre dos condicionamentos sociais de sua época. Isso nos permite afirmar que todo filme é passível de ser utilizado enquanto documento. No entanto, para utilizar-se cientificamente de uma tal assertiva, requer-se cautela e cuidados especiais. A forma como o filme reflete a sociedade não é, em hipótese alguma, direta e jamais apresenta-se de maneira organizada (em circuitos lógicos e coerentes), mesmo que assim o aparente. Por isso, é necessário que o pesquisador, ao tratar o filme como fonte documental, distancie-se da concepção mecanicista pela qual o reflexo social é abordado de forma direta, tão cara ao pensamento vulgar de uma das vertentes da sociologia histórica dita marxista, nos séculos XIX e XX, e que pode ser identificada, por exemplo, nas idéias defendidas por Plekhanov, numa linha de pensamento que se afirmou como dominante no seio da II Internacional e que influenciou bastante a teorização sobre a arte de vários segmentos da esquerda em todo o mundo. Outros pensadores, por sua vez, se opuseram à postura plekhanovista, a exemplo de Mehering, para quem a arte, na sua dialética da criação, não constituía um mero reflexo social, valorizando, assim, o momento subjetivo na teoria estética.(1)

O filme como discurso sobre o passado

Desde um passado muito remoto, a história vem servindo de inspiração temática para muitas formas de representação, seja ela lendária, a exemplo das epopéias narradas por Homero, teatral, como, por exemplo, as tragédias de Ésquilo ou Aristófanes, literária, plásticas e tantas outras. Essa tendência foi cristalizada após a Revolução Francesa e a difusão do Romantismo. Com o advento do cinema e a sua popularização (leia-se transformação em meio de comunicação de massa), essa característica adquiriu contornos muito mais abrangentes. Não é por acaso que um número muito elevado dos filmes produzidos mundialmente possui um referente histórico.

Dessa forma, pode-se afirmar que o "filme histórico", como detentor de um discurso sobre o passado, coincide com a História no que concerne à sua condição discursiva. Portanto, não é absurdo considerar que o cineasta, ao realizar um "filme histórico", assume a posição de historiador, mesmo que não carregue consigo o rigor metodológico do trabalho historiográfico.

O grande público, hoje, tem mais acesso à História através das telas do que pela via da leitura e do ensino nas escolas secundárias. Essa é uma verdade incontestável no mundo contemporâneo, no qual, de mais a mais, a imagem domina as esferas do cotidiano do indivíduo urbano. E, em grande medida, esse fato se deve à existência e à popularização dos filmes ditos históricos.

No entanto, esses filmes encontram uma grande reação negativa por parte do público dito "culto", incluindo uma boa parcela dos historiadores, que enxerga nessas produções apenas um meio de vulgarização da História, o que não se constitui, na sua totalidade, numa crítica verdadeira. Colocando-se contra essa postura, o historiador não deve menosprezar, nem ficar à margem desse processo de difusão do saber histórico através do cinema e, atualmente, também da televisão e do videocassete, mas sim aproveitar o seu potencial (que pode ser documental ou didático, se aplicado ao ensino da História), contribuindo, dessa forma, para o desenvolvimento de uma leitura cinematográfica da história eficiente e formadora de conhecimento científico e consciência histórica.

Com os avanços tecnológicos e científicos alcançados pela humanidade, em especial no domínio da comunicação, neste fim de milênio, modificaram-se bastante os tipos de relações sociais empreendidas pelo homem. E desta nova era que se esboça, com contornos ainda indefinidos, o cientista social não se pode distanciar, sob o risco de se encontrar inteiramente fora da realidade do processo histórico em curso. Nesse sentido, assiste-se ao surgimento de uma necessidade (histórica) imperativa para as ciências que estudam o homem e as suas relações: sua modernização, por meio da integração com os novos recursos da comunicação e, no nosso caso em particular, com o cinema.

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